Com o amadurecimento da mídia “anime”, e o alcance do mainstream, existe uma discussão na comunidade sobre os clássicos, e como a nossa relação com eles tem mudado na última década. A dominação de séries ininterruptas tem mudado para um esquema de temporadas, e isso afeta a nossa relação com a própria mídia. Séries mais antigas podiam ser classificadas como clássicos não só por causa dos temas abordados ou pela produção, mas pelo fato de estar em exposição constante ao público, e assim marcando uma geração e inspirando o que vem depois.

A série Boogiepop, de Kouhei Kadono, começou em 98 no formato de light novels, e no início dos anos 2000 já era um best seller com uma adaptação live action do primeiro livro e um anime produzido pela MADhouse, que expandia ainda mais o universo. Foi uma das primeiras light novels a atingir um público tão grande e a ser tão bem sucedida nas críticas, e naturalmente inspirou obras que vieram depois, como Baccano e Durarara, e até a série Monogatari, podendo ser considerada um clássico incontestável pelos parâmetros que usamos para os animes.

Mas como light novels como mídia eram de difícil acesso 20 anos atrás, a série acabou nunca fazendo muito sucesso no ocidente, até que em 2019, um novo anime também produzido pela MADhouse, e nas mãos do diretor Shingo Natsume, que ficou famoso pela primeira temporada de One Punch Man, acendeu uma chama na série que continua até hoje no japão, e atraiu novos fãs no ocidente. Diferente da versão de 2000, Boogiepop Wa Warawanai adapta os primeiros quatro livros da série, tentando ser mais fiel ao material fonte.

A grande dificuldade de adaptar um livro é tentar manter a coesão na história, com a mudança constante de pontos de vista que é comum a esse tipo de mídia. E o anime resolve isso com uma montagem não linear dos pontos narrativos, mudando de ponto de vista entre os personagens, indo e voltando no enredo para alcançar um ponto onde a história converge e dá conclusão à jornada. Mas como os livros contam histórias diferentes e não seguem uma cronologia linear, nem todos os arcos são assim.

O que liga a história são os personagens, que são desenvolvidos o suficiente pra história que o arco conta. Com exceção de Boogiepop, um shinigami que ajuda a humanidade a se proteger de diversas ameaças, não são todos os personagens que aparecem corriqueiramente no anime. A direção faz um trabalho excelente em criar um clima de mistério ao redor de Boogiepop, e como os personagens entendem esse mistério e se relacionam com ele.

O clima de mistério é amplificado pela trilha sonora, que usa o silêncio para gerar uma sensação aflitiva no espectador, criando uma tensão com a trilha musical e quebrando a tensão abruptamente, não permitindo a sensação de catarse. Entretanto, a direção guarda a catarse para o momento mais efetivo, no clímax de cada arco, onde toda essa aflição é descarregada de uma vez, e esse é o ponto mais forte do anime.

Mas a direção incomum fez com que muitas pessoas desistissem do anime mesmo no início, pelo ritmo lento e desenvolvimento complicado da história.O anime também gerou uma expectativa prévia de que seria uma série de ação com cenas super bem animadas, pelo histórico do diretor e pela montagem dos trailers. Fora isso, o anime trata de temas psicológicos, com mais diálogos e momentos contemplativos que te fazem mergulhar na história. As cenas de ação são bem feitas, mas não de forma que ofusque o fato de que o enredo é o mais importante.

8.2
Nota final

Prós

  • Clima de suspense bem construído
  • Cenas de ação bem feitas
  • Narrativa não linear bem feita

Contras

  • Ritmo lento
  • Transições abruptas entre pontos de vista
Roteiro
9
Personagens
7
Animação
8
Trilha Sonora
9

Veredito final:

Boogiepop Wa Warawanai, como anime, é um dos melhores do início de 2019. Os temas abordados, o clima e as resoluções de cada arco fazem o espectador manter-se engajado, e recompensa-os em muitos momentos de reviravoltas e sempre é muito satisfatório, mas não é uma série para todo mundo. O ritmo lento e a direção do anime podem frustrar algumas pessoas, mas se você procura temáticas mais densas que as adaptações de light novels que saem aos montes em todas as temporadas, você provavelmente vai aproveitar essa obra.