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ENDRO! l Crítica

Há uma verdade já reconhecida entre o meio otaku, a cada temporada que se finaliza e a cada nova que se inicia, alguns elementos sempre se repetem, em fenômenos cíclicos, reais vícios da indústria. Uma das provas que sustentam esse pensamento é que, para todo animê de comédia moe com garotas fofinhas que se encerra, um novo toma seu lugar. Dificilmente esse tipo de obra se torna viral, acumula múltiplos admiradores e estabelece uma fandom sólida, entretanto, possui penetração e carisma dentro de um nicho de pessoas que normalmente consomem produtos com essas peculiaridades, motivo que leva toda temporada a conter pelo menos alguns desses frutos. Felizmente ou infelizmente, Endro~! é uma dessas produções, no entanto, não se limita a tal.

Desde o início, o animê se revela simples, contará uma jornada descontraída, espontânea e divertida, com um grupo de aventureiras visualmente bonitinhas e agradáveis, recheada de momentos humorísticos e interações entre elas. Mesmo ambientado em uma aventura aos moldes já conhecidos da fantasia, não possui o menor foco em ação ou até mesmo exploração, seu foco está no repertório de piadas recorrentes de cada personagem e de seu carisma individual e grupal, em uma estrutura episódica de “aventura da semana” que não sente vergonha em ter um roteiro conveniente para alcançar seus alvos. Sendo essa sua proposta inicial, que até o fim se mostra eficiente e coerente, o que por si só é um mérito válido.

Contudo, a produção carece de qualidades técnicas. Mesmo tendo uma trilha sonora eficiente, que lembra fantasias medievais já consagradas e uma palheta de cores bonita que compõe bem o carisma visual das protagonistas, a movimentação dos elementos em tela são por vezes mínimos e a direção é comum e pouco autoral.

No entanto, os cenários são certamente a principal característica negativa, sendo extremamente pobres, básicos e com ausência de qualquer detalhe, o que gera um pouco de desconforto. Entretanto, esses defeitos não arruinam a obra, pois suas qualidades são independentes de recursos técnicos exemplares. Logo, são falhas incômodas, porém, não invalidam os méritos aqui presentes.

Apesar da produção frágil, possui razões o bastante para ser minimamente divertido para os espectadores, principalmente se adquirirem simpatia com as personagens e agradarem das piadas dispostas aqui. Além do mais, o enredo conta com algumas qualidades e decisões não esperadas destas séries, pois, grande parte do elenco e também algumas situações impostas, subvertem o previsto.

Isso ocorre em razão dos elementos satíricos e por vezes irônicos na construção das personagens, com a inserção sutil de traços contraditórios aos clichês usuais, em prol de pequenas gozações ao gênero de fantasia. Dessa maneira, gerando uma comicidade atípica e criativa, por meio da sátira, que enriquece o projeto e o distingue da maioria

Para além do objetivo cômico, algumas personagens utilizam da subversão para apresentar dilemas e dinâmicas surpreendentes, que expõe seus traços emocionais e elevam suas qualidades narrativas de forma notável. Como a suposta vilã, Mao-chan (Rei Demônio), que se sente solitária e tem uma trajetória ao longo dos episódios de inclusão, ironicamente, auxiliada pelo grupo de heroínas destinadas a derrotar-la, quebrando o conceito comum de antagonista.

Além deste, outro exemplar seria Juulia, a heroína, que revoga seu sonho e destino como salvadora profética, em pró de sua amizade com Mao-chan. Assim sendo muito bem balanceados os conflitos pessoais e o âmbito humorístico, não desviando-se do tom espontâneo aqui presente, mas também, não abrindo mão de virtudes narrativas.

Ainda cima, outro diferencial é a conclusão, que aborda de maneira direta o tema implícito da obra, o destino. Retratando-o de maneira descomplicada e infantil, todavia, também de modo irônico e cíclico, assim, adquirindo uma maior completude narrativa. Um feitio contraditório, mas condizente com sua proposta e trajetória, sendo dessa forma satisfatório. Igualmente adequado é o desfecho final das protagonistas, circular e ao mesmo tempo reformatório, recompensando os espectadores pelo percurso até aqui.

Concluindo, Endro~! mostrou-se surpreendente, carismático e divertido. Apesar de ser uma obra episódica, sua eficiência é constantemente sólida e seus melhores episódios são os que mais exploram as individualidades e carisma próprios de cada uma das protagonistas. Certamente, não é um animê excepcional que marcará o ano, mas com certeza foi uma experiência divertida, combatendo os preconceitos de quem vê todas essas obras como iguais e por esse motivo, acabaram por não dar uma chance a esse projeto.

 

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