Jojo’s Bizarre Adventure Vento Aureo | Crítica

O conceito de stands, que foi introduzido na parte 3, a esse ponto parecia não ter muito pra onde evoluir e mesmo assim o autor consegue criar as situações mais inusitadas e bem bizarras.

Quando eu indico animes pra alguém que não assiste ou não conhece muito, normalmente a indicação é seguida de um aviso: “tens que abrir mão de umas coisas pra entender a mensagem que a história quer passar”, afinal, existe um vão cultural imenso entre oriente e ocidente, e não são muitas as obras que apelam para ambos os públicos. Mas indicar Jojo adiciona um nível a mais de complexidade. Embora eu goste de todas as partes, a minha estratégia é indicar os caminhos mais fáceis de entrar, já que a série só aumenta há quase 30 anos. E pra isso eu preciso ter a experiência dessas histórias.

A parte 5 de Jojo adapta um período um pouco mais experimental do autor Hirohiko Araki, transicionando da estética de homens super musculosos pra estética que nós conhecemos hoje, e de diferentes estilos de escrita. O conceito de stands, que foi introduzido na parte 3, a esse ponto parecia não ter muito pra onde evoluir e mesmo assim o autor consegue criar as situações mais inusitadas e bem bizarras.

Logo de cara, o que salta aos olhos é a direção de arte diferentona. Embora seja menos imaginativa e surreal que na parte anterior, o traço é marcante, talvez o mais marcante de todas as adaptações até agora. E pra acompanhar, a liberdade que escrever uma história que se passe longe do Japão trouxe a oportunidade de explorar conflitos diferentes, mas ainda sim desencadeados pelos acontecimentos da parte 3.

E como cada parte, Araki experimenta com gêneros diferentes de roteiros e como contar as histórias. Se pararmos para comparar a evolução de desde o início da sua carreira até aqui, podemos notar que Vento Aureo pega bastante as ideias da parte 3, no sentido dos protagonistas estarem sempre viajando, mas no contexto da Parte 5 faz mais sentido, por existirem mais circunstâncias que se beneficiam dessa narrativa que em Stardust Crusaders.

A David Production (Captain Tsubasa, Hataraku Saibou) é conhecida por sua adaptação competente do mangá, e por outro lado, por não ter as suas séries tão bem animadas, infelizmente. Mas Vento Aureo é um passo imenso adiante em direção de animação e direção de fotografia. As influências de filmes de máfia são claras e ainda assim não ofuscam de forma alguma a personalidade e as singularidades da mão do autor.

Entretanto, mesmo com tudo isso, o modo como a história é contada e como os personagens interagem entre si acaba sendo um peso que impede essa parte de Jojo alcançar a perfeição. O telespectador consegue ter empatia por cada um dos membros do grupo principal por seu carisma e suas histórias de vida, mas não acabam sendo coerentes com o que vemos na tela. Todos os personagens têm seus flashbacks, os quais são encontrados pelo Bruno Buccellati, e assim motivados a entrar na máfia, e durante o anime existem momentos em que esses membros começam a ter mais e mais consideração pelo Giorno, o “protagonista” da parte 5.

Isso acaba gerando um conflito para quem está assistindo, de não saber quem é o real protagonista dessa história, porque sabemos que o personagem principal é o Giorno, mas quem faz as coisas acontecerem e a história seguir em frente é o Bruno. E numa mistura de tentar criar personagens carismáticos e empáticos, e de tentar estabelecer quem de fato é o líder da equipe, é onde a série se arrasta.

E mesmo com isso, as lutas entre cada personagem conseguem ser muito boas. Com a exceção de uma luta (que o Giorno está envolvido), todas as outras conseguem seguir a fórmula shonen que o Araki tanto utilizou na parte 3, mas agora de uma forma excelente, fazendo que quase todas as lutas tenham significado. Nada é só por ser.

Os conflitos mais interessantes acabam sendo os do Bruno, tanto pelo poder bizarro e as situações bizarras que ele proporciona, quanto com a perspicácia das soluções nesses conflitos, o que me causou uma felicidade maior em ouvir “Ari Ari Ari” em vez de “Muda Muda Muda”.

A música dessa parte é a mais icônica até agora. E o fato de existir a música dos personagens principais é melhor pro telespectador, pois a atmosfera de volta por cima e vitória tenta ser a mesma para todos os personagens, sendo assim, fica mais fácil pra quem assiste escolher quem é seu best boy, afinal, na parte 5 só temos boys maravilhosos.

Mas a música não serve só como atenuador de momentos com viradas de jogo, mas também de grande emoção pra cada personagem, como a luta do Bruno contra Pesci, por exemplo. Essa luta é tão maluca, tão frenética, e o final é tão catártico, que faz valer a pena assistir tudo de Jojo, porque Jojo é isso. O anime faz um trabalho excelente em criar uma atmosfera onde tudo parece dar errado e eventualmente dá certo, e o sentimento é muito bom.

Eu ainda tenho alguns problemas com o rumo que a história acabou indo. É uma responsabilidade muito grande continuar de onde a parte 4 parou, sendo que ela fez tantas coisas tão bem, mas a adaptação fez o melhor que podia pra manter a atmosfera típica de Jojo até o fim, mesmo que o material fonte não fosse a melhor história do Araki.

Apesar disso, Vento Aureo ainda é o pacote completo: a arte, as músicas, as catarses, as referências, os memes, está tudo lá. Mesmo não sendo a melhor história que o autor fez até hoje, essa adaptação consegue elevar a obra. O encontro de todas essas coisas fez com que essa parte marcasse a história, firmando a série Jojo’s Bizarre Adventure como uma das melhores adaptações dessa última década.

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