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SLICE OF LIFE!!! Parte 1

Uma das coisas que eu acho mais preciosas na narrativa de um slice of life é como fazer o público ter empatia e se identificar com os personagens. E a facilidade de me sentir representado acaba fazendo com que esse seja um dos meus estilos favoritos. Slice of Life não necessariamente precisa ser um drama pé no chão que seja fiel à realidade, mas também pode ser uma comédia, uma história de romance, ou até uma aventura!

Essa versatilidade do gênero é uma das coisas que mais me encanta. Ao mesmo tempo que eu posso ter uma história como Welcome to the NHK, eu também posso ter uma história que parte o meu coração e ainda me conforte como foi Sora Yori mo Tooi Basho, ou como tá sendo Araburu Kisetsu no Otome-domo yo.

No entanto, o denominador comum nessas histórias é a calma de criar as relações entre os personagens e como essas relações são o carro-chefe da narrativa. Um dos motivos da Parte 4 de Jojo, Diamond is Unbreakable, ser a minha preferida é o fato do roteiro beber dessa fonte do slice of life e dar um ênfase maior para a relação entre os personagens.

Eu sempre tive uma queda por música, tanto trilhas sonoras, aberturas, encerramentos e principalmente: narrativas sobre música. Tem vários animes Slice of Life que usam a música como fundo pra destacar a relação entre personagens, como Nodame Cantabile, Shigatsu Kimi no Uso, Nana, posso sentar uma hora só listando animes assim. Mas teve um específico que me pegou de uma maneira que nenhum outro conseguiu.

Beck conta a história de um menino Koyuki que se sente num beco sem saída na adolescência, sem um propósito, sem nenhum sonho, o que é até comum pra protagonistas de histórias como essa. Até ele encontrar Ryuusuke, um garoto nipo-americano com um cachorro esquisito. Ryuusuke incentiva Koyuki a aprender a tocar guitarra, e aos poucos isso vai mudando a sua vida. Como todos esses animes que eu já citei.

Mas em Beck eu consegui me identificar de uma maneira que nunca tinha acontecido comigo. Os paralelos entre aquela adolescência e a minha adolescência brasileira, vivendo meio sem propósito, só estudando pra fazer um vestibular no fim do ano, foi onde a história me agarrou pelo pescoço. Koyuki não é um herói, nem vilão. Em qualquer outra história ele só seria um cara que está ali. E eu era essa pessoa.

Quando Koyuki aprende a tocar violão, eu vi representadas todas as angústias do início do aprendizado de um instrumento. Como é maçante e como às vezes a gente pensa que nem era isso que queria estar fazendo mesmo.

E o anime dá um ênfase inteligente contrastando esse início de jornada na música com o fato de ele não se sentir pertencente ao grupo de amigos na escola, que é algo que eu senti muito na adolescência. A direção do anime é excelente em destacar esse sentimento sem deixar a história monótona, como normalmente esses anos da adolescência acabam sendo.

Mas Beck vira um anime excepcional quando a banda é formada. Todos os percalços, ensaios, gravações, shows em lugares apertados pra pouca gente, falta de dinheiro, tudo isso é muito bem representado, e só hoje, depois de passar por todas essas experiências eu consigo entender claramente o quão bem a história conta a jornada de começar uma banda. E as músicas, as referências musicais, tudo era exatamente o que eu queria ouvir na minha adolescência e o que eu acabei me tornando. Eu acabei até comprando uma guitarra igual à do Koyuki!

Normalmente, a ideia que vendem pra gente é que a adolescência e o início da vida adulta vão ser os melhores momentos da nossa vida, e que a gente precisa aproveitar ao máximo, mas não levam em consideração que às vezes a gente não se encaixa pra viver os melhores momentos, nos não encontramos as pessoas certas pra viver esses “melhores momentos”.

E é bem daí que vem a importância dos Slice of Life: contar histórias que não necessariamente vão ser os melhores momentos da vida dos personagens, mas sim os momentos reais. No meio de tantos Isekais e Shonens mágicos, é importante ter também uma história pé no chão que a gente possa se identificar num nível tão básico.

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